Em entrevista ao Natureza Viva, nesse domingo (11) o climatologista Carlos Nobre, primeiro cientista brasileiro a integrar o grupo dos Guardiões Planetários, afirmou que o mundo já não vive mais uma “mudança climática”, mas uma verdadeira emergência climática, com o planeta perigosamente próximo de 1,5 °C de aquecimento global e emissões de gases de efeito estufa em níveis recordes.
Ao relacionar a crise climática ao atual cenário geopolítico, Nobre criticou duramente a política do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, acusando-o de promover deliberadamente a expansão do uso de combustíveis fósseis. Para o cientista, a invasão da Venezuela tem como motivação central o controle de reservas estratégicas de petróleo, já que o país sul-americano detém as maiores reservas conhecidas do mundo, com cerca de 303 bilhões de barris, e é hoje um dos principais fornecedores da China.
Nobre também alertou para os riscos globais associados às declarações e iniciativas dos Estados Unidos em relação à Groenlândia e ao Canadá. Segundo ele, o interesse norte-americano nesses territórios está ligado ao derretimento do gelo do Ártico, que facilitaria tanto a exploração de petróleo e minerais quanto a abertura de novas rotas marítimas. O cientista comparou a escalada de tensões a períodos críticos da história mundial, advertindo para o risco de uma instabilidade geopolítica sem precedentes desde a Segunda Guerra Mundial.
Sobre o Brasil, Carlos Nobre afirmou que o país pode desempenhar um papel estratégico na transição energética global. Ele lembrou que estudos científicos indicam que o Brasil tem condições de alcançar emissões líquidas zero até 2040, por meio da rápida substituição dos combustíveis fósseis por fontes renováveis. No entanto, advertiu que esse protagonismo pode gerar pressões externas, já que contraria interesses ligados à expansão do petróleo e do gás no mundo.
Por fim, Nobre informou que os Guardiões Planetários estão organizando, a partir dos desdobramentos da COP30, um painel científico internacional para a transição energética, que deverá apresentar seus primeiros resultados na COP31, na Turquia. O objetivo é demonstrar, com base científica, que a substituição acelerada dos combustíveis fósseis é tecnicamente viável e essencial para conter o colapso climático.