No último dia 3 de agosto celebramos o centenário de nascimento de um dos grandes nomes da bateria brasileira: Dom Um Romão. Nesta edição da coluna Radar Sonoro, a jornalista Sarah Quines conta que ele foi um carioca de estilo único, que nasceu em uma família musical — o pai também era baterista e tocava em bailes, permitindo que o jovem praticasse nos intervalos das apresentações.
Aos 16 anos, iniciou a trajetória profissional. Nos anos 1940, atuou em conjuntos de bailes e como acompanhante de grandes cantoras da época, como Dircinha e Linda Batista, na orquestra da Rádio Tupi.
Na década de 1950, tornou-se presença frequente no histórico Beco das Garrafas, em Copacabana, como integrante do Copa Trio. O grupo teve inicialmente Manuel Gusmão e Toninho, mais tarde substituído por Dom Salvador.
No Beco, Romão conheceu Sérgio Mendes, que o convidou, em 1962, para se apresentar no lendário Carnegie Hall, em Nova York, com o sexteto Bossa Rio. Esse período coincidiu com o auge da Bossa Nova nos Estados Unidos, e Romão participou de gravações importantes, como “Cannonball’s Bossa Nova” (1963), com o saxofonista estadunidense Cannonball Adderley. Ele foi um dos pioneiros a levar a percussão brasileira para o jazz dos Estados Unidos.
Antes disso, em 1958, já havia colaborado em um marco da música brasileira: o álbum “Canção do Amor Demais”, de Elizeth Cardoso, considerado um dos pontos de partida da Bossa Nova.
Figura influente no cenário carioca, Dom Um Romão acompanhou no Beco das Garrafas o jovem Jorge Ben, tocando bateria no álbum de estreia “Samba Esquema Novo” (1963). Em 1964, esteve ao lado de Elis Regina em seu primeiro show no Bottles Bar.
Ainda em 1964, lançou o primeiro álbum solo, um clássico do samba-jazz com 12 faixas, abrindo com “Telefone”, de Roberto Menescal e Ronaldo Bôscoli.
Na segunda metade da década de 1960, fixou residência nos Estados Unidos. Lá, excursionou com Stan Getz e Astrud Gilberto, trabalhou com Luiz Bonfá, Tom Jobim e chegou a ser convidado para integrar o álbum de Frank Sinatra com Tom Jobim.
Nos anos 1970, viveu um período de ouro: entrou para o grupo Weather Report, um dos ícones do jazz fusion, viajando pelo Japão e outras partes do mundo. Também saiu em turnê com a banda Blood, Sweat and Tears e lançou uma trilogia de discos solo elogiados pela crítica.
Entre eles, destaca-se “Atmosphere” (1976), que inclui uma releitura de “Escravos de Jó”, de Milton Nascimento.
Dom Um Romão é lembrado não apenas como um baterista de técnica refinada, mas como um elo entre a música brasileira e o jazz internacional, ajudando a projetar o ritmo e a sofisticação da Bossa Nova para além das fronteiras do Brasil.
O músico morreu no dia 27 de julho de 2005, no Rio de Janeiro, após sofrer um acidente vascular cerebral.
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