No Radar Sonoro desta semana, Sarah Quines conta uma ótima notícia: o presidente Luiz Inácio Lula da Silva sancionou a lei que declara Pixinguinha e Lupicínio Rodrigues patronos da música popular brasileira. O texto da lei também foi assinado pelas ministras da Cultura, Margareth Menezes, e de Direitos Humanos e Cidadania, Macaé Evaristo.
A homenagem é concedida a brasileiros mortos há pelo menos 10 anos que se destacaram por excepcional contribuição ou especial dedicação ao segmento, neste caso, à música.
O Radar Sonoro aproveitou a notícia para relembrar um pouco da vida e da obra desses dois gênios da música brasileira.
Começando por Alfredo da Rocha Vianna Filho, mais conhecido por Pixinguinha – apelido que recebeu da avó. Nascido em 1897, no bairro da Piedade, na zona norte do Rio de Janeiro. O Dia Nacional do Choro, celebrado em 23 de abril, é em homenagem a ele, pois essa era a data em que se acreditava que havia nascido, mas pesquisas mais recentes confirmaram que, na verdade, nasceu em 4 de maio.
Pixinguinha já tocava cavaquinho com 11 anos e compôs o primeiro chorinho aos 14, chamado “Lata de Leite”. Fez a primeira gravação com o grupo “Choro Carioca”, de uma polca, em 1911, quando também tocou flauta em um rancho carnavalesco. Nesse período, encontrou dois grandes parceiros: Donga e João da Baiana.
Embora fosse lembrado como o grande mestre do choro, a primeira composição própria que gravou foi um tango.
Depois da pandemia da gripe espanhola, em 1919, aconteceu a primeira apresentação da Orquestra Típica Oito Batutas, conjunto formado para entreter o público na sala de espera do Cine Palé, com maxixes, lundus e batuques. Mas, na época, o racismo era ainda mais escancarado no país, e os Oito Batutas – com metade dos músicos negros, incluindo Pixinguinha – foram vistos como um escândalo pela aristocracia racista.
No final dos anos 1920, começo dos anos 1930, Pixinguinha passou a trabalhar como arranjador na RCA Victor, após vencer um concurso da gravadora com nada menos do que “Carinhoso”. O pesquisador Sérgio Cabral, que escreveu sua biografia, destacou a importância do músico para abrasileirar as orquestrações e o considerou o grande nome quando se fala em orquestração para a música popular brasileira.
Lupicínio Rodrigues nasceu em Porto Alegre no dia 16 de setembro de 1914. Ele inventou o estilo “dor-de-cotovelo”, por causa das canções que versavam sobre o sentimento de cornície, como definiu o poeta Augusto de Campos. Lupicínio transformava essas situações em poesia pura, melódica e cantarolável – talvez porque compusesse assobiando. Sem formação musical, usava no máximo uma caixa de fósforos para acompanhar o ritmo, em um som que bebia do samba carioca e também do tango argentino. Foi ainda o compositor do hino do Grêmio.
Desde os 10 anos de idade, já compunha para os blocos do carnaval porto-alegrense. Tinha vocação para a vida boêmia desde jovem e teria sido visto em um bar por Noel Rosa, que percebeu seu talento. Inscreveu-se em concursos de música popular e venceu prêmios.
A boemia, inclusive, teria motivado sua primeira desilusão amorosa, Inah, musa inspiradora de muitos sambas, como seu primeiro sucesso, “Se Acaso Você Chegasse”, gravado por Cyro Monteiro no fim dos anos 1930 e eternizado por Elza Soares em 1959, no início de sua carreira.
Por volta dos anos 40, as composições de Lupicínio já tinham conquistado grandes vozes do rádio, como Orlando Silva, Ataulfo Alves e Moreira da Silva. Em 1947, Francisco Alves interpretou “Nervos de Aço”, obra regravada inúmeras vezes, inclusive pelo próprio compositor.
Francisco Alves foi um dos grandes intérpretes de Lupicínio naquele período em que sua música ganhava o Brasil, gravando o samba “Esses Moços”, entre outros.
Nos anos 50, as canções do compositor chegaram às vozes de Isaurinha Garcia e Linda Batista, que gravou “Vingança” – maior sucesso de Lupicínio, descrito por ele mesmo como a maior praga que rogou na vida, verdadeiro hino da dor-de-cotovelo.
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