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Radar Sonoro: após 50 anos, a história de Tenório Jr. vêm à tona

Sarah Quines conta a história do músico brasileiro de Bossa Nova que foi morto pela ditadura argentina

Tarde Nacional - São Paulo

No AR em 24/10/2025 - 15:24

No Radar Sonoro desta semana, Sarah Quines conta a história de um pianista brasileiro desaparecido há cerca de 50 anos e que foi, enfim, encontrado. Trata-se de Francisco Tenório Cerqueira Júnior, mais conhecido como Tenório Jr., instrumentista que teve um papel importante na Bossa Nova. Nascido em julho de 1940, no bairro das Laranjeiras, no Rio de Janeiro, o músico costumava tocar no famoso Beco das Garrafas, em Copacabana — berço da Bossa Nova — e participou das gravações dos discos É Samba Novo, do baterista Edison Machado, e O LP, dos Cobras, dois marcos do samba-jazz. Além do álbum solo Embalo.

O pianista também tocou junto de Milton Nascimento, Edu Lobo, Joyce… Em 72, participou das gravações do disco de estreia de Lô Borges, conhecido como “o disco do tênis”. E foi enquanto Tenório Júnior acompanhava Toquinho e Vinícius de Moraes numa turnê pela América do Sul que desapareceu, no dia 18 de março de 1976, em Buenos Aires, aos 35 anos.

Isso foi poucos dias antes do golpe militar na Argentina, que derrubou Isabel Perón, a primeira mulher a ocupar a presidência de um país no mundo. E o clima de repressão já pairava no ar.

O que se sabia até então era que, depois do show, o músico havia saído para comer um lanche e não foi mais visto. A única pista era um bilhete que deixou para Vinícius de Moraes naquela madrugada, dizendo que ia sair para comprar um sanduíche e um remédio, e que logo voltava. Nunca mais voltou.

Os investigadores argentinos confirmaram que as impressões digitais do músico são compatíveis com as de um homem que estava enterrado em um terreno baldio em Buenos Aires. O corpo foi encontrado no dia 20 de março de 1976, ou seja, dois dias depois do sumiço de Tenório Jr. Segundo a autópsia, ele foi morto a tiros e estava, desde então, enterrado numa vala comum de um cemitério de Buenos Aires.

O reconhecimento foi possível graças ao trabalho da Procuradoria de Crimes contra a Humanidade da Argentina, que investiga os casos de corpos não identificados encontrados em via pública entre meados dos anos 70 e 80. A Equipe Argentina de Antropologia Forense atua há mais de 40 anos nos casos de desaparecidos políticos.

A brutalidade do destino de Tenório Jr. se insere dentro do contexto da Operação Condor, uma campanha de repressão alinhada entre as ditaduras na América Latina, em países como Argentina, Bolívia, Brasil, Chile, Paraguai e Uruguai, com apoio dos Estados Unidos. Os agentes das ditaduras torturavam, matavam e desapareciam com os militantes políticos contrários ao regime dos militares. Ele teria sido confundido com um militante político por conta da aparência de barba — um visual considerado subversivo.

A notícia foi divulgada pela Comissão Especial sobre Mortos e Desaparecidos Políticos no dia 13 de setembro, que informou que o reconhecimento se deu pela comparação de digitais humanas.

Tenório Jr. era reconhecido como desaparecido político pelo Estado brasileiro e teve a ausência assumida pelo governo argentino em 1997.

Também em 97, o guitarrista da banda Som Imaginário, Fredera, escreveu o livro O Crime contra Tenório: Saga e Martírio de um Gênio do Piano Brasileiro.

A história de Tenório Jr. inspirou o espanhol Fernando Trueba a escrever o roteiro da animação Atiraram no Pianista, que dirigiu ao lado de Javier Mariscal.

O filme acompanha um jornalista de Nova York atrás da verdade sobre o que aconteceu com um pianista brasileiro que desapareceu na Argentina. A narrativa mescla ficção com depoimentos de músicos como Chico Buarque, Gilberto Gil, João Donato e Roberto Menescal.

O pianista começou, na verdade, por outros instrumentos: por volta dos 15 anos, tocava acordeon e violão, e depois foi se dedicar ao piano.

E chama a atenção o ano de 1964, quando Tenório Jr. tinha entre 23 e 24 anos e gravou três pedras fundamentais do samba-jazz.

Ele está entre as feras — ou melhor, entre os Cobras —, time de peso escalado para o álbum chamado O LP, do grupo Os Cobras, que tem esse nome justamente pela maestria e domínio técnico dos integrantes em seus instrumentos. Era a turma habitué do Beco das Garrafas, com J.T. Meirelles no saxofone e flauta, José Carlos no contrabaixo, Milton Banana na bateria, Raulzinho no trombone, Hamilton no trompete, Paulo Moura no sax alto, Roberto Menescal no violão e Tenório Jr. no piano.

Curiosamente, o outro álbum com Tenório Jr. que saiu em 64 também traz Quintessência. O disco em questão, É Samba Novo, do baterista Edison Machado, com arranjos do maestro Moacir Santos, reúne algumas figuras repetidas dos Cobras, como Paulo Moura, Raulzinho e J.T. Meirelles, além de Tenório Jr.

E o terceiro trabalho com o nome de Tenório Jr. que saiu em 64 é o único disco solo do pianista: Embalo, lançado pela gravadora RGE. Entre os músicos que acompanharam Tenório nas gravações estão Paulo Moura, Milton Banana, Raulzinho, Édson Maciel, Hector Costita e J.T. Meirelles.

São onze faixas — seis no lado A e cinco no lado B —, numa profusão de elementos do samba, do jazz, especialmente do bebop, numa pegada mais pesada de Bossa Nova, que deu em samba-jazz.

O repertório equilibra quase metade de composições próprias: cinco faixas são de autoria de Tenório, e a outra metade reúne versões de canções de Johnny Alf, Zezinho Alves, Bud Shank e de parcerias entre Aloysio de Oliveira com Tom Jobim, Baden Powell com Vinícius de Moraes, e Durval Ferreira com Maurício Einhorn.

Entre as inovações trazidas pelo pianista está a função invertida dos instrumentos: na faixa Inútil Paisagem, o tema fica por conta do piano, e não dos sopros.

Tenório Jr. foi um expoente da música instrumental dos anos 60 que, além de compor obras com harmonias inovadoras — modernas ainda hoje —, também criou arranjos para temas conhecidos que se transformaram em vigorosas versões de samba-jazz.

No texto da contracapa do disco Embalo, Tenório Jr. escreveu sobre a diferença entre estar numa casa noturna, com o incentivo do público, e num estúdio de gravação, onde a floresta de microfones intimida o principiante à primeira vista. Ele agradece aos companheiros de gravação e encerra de uma forma muito humilde, dizendo que ali está o produto de um trabalho sincero e esforçado — segundo ele, “o que temos para apresentar no momento”.

Clique no player para ouvir a coluna.

 

Criado em 24/10/2025 - 15:35

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