Sarah Quines apresenta na coluna “Radar Sonoro” desta semana, a história de uma banda que marcou época: o Azymuth. Meio século depois do disco de estreia, o trio retorna em 2025 com um álbum totalmente inédito. Ela lembra que a combinação de balanço, harmonia e groove criada por três músicos excepcionais resultou em uma linguagem própria, singular. O grupo sempre transitou entre gêneros, jazz sem ser exatamente jazz, funk sem ser propriamente funk e samba sem ser apenas samba, algo que eles mesmos definiam como “samba doido”. Em depoimento à TV Brasil, Ivan Conti, o Mamão, contou que um produtor chegou a elogiar o som, afirmando que o trio estava “20 anos à frente”.
O Azymuth surgiu com José Roberto Bertrami nos teclados, Alex Malheiros no baixo e Mamão na bateria. Antes de adotarem o nome que os tornaria conhecidos, os três já eram músicos de estúdio e participaram de gravações de trilhas de novelas e discos de artistas como Raul Seixas, Jorge Ben, Elis Regina, Odair José, Rita Lee e Milton Nascimento. A ideia de criar um projeto próprio nasceu quando Malheiros e Bertrami acompanhavam Eliana Pittman. Primeiro formaram o Grupo Seleção, que se apresentava em bailes e chegou a gravar um compacto com músicas de Roberto e Erasmo Carlos.
O primeiro álbum do trio foi feito sob encomenda por uma companhia aérea, em 1972, para presentear clientes. Eles gravaram ao lado de Marcos Valle, com quem já trabalhavam antes mesmo de adotarem o nome Azymuth. Em 1973, se reuniram novamente para compor a trilha do filme O Fabuloso Fittipaldi, que começava com a faixa “Azimute”, de Marcos Valle, música que acabou inspirando o nome do grupo. Em 1975, lançaram o primeiro disco autoral pela Som Livre. Para viabilizar a gravação, o trio ainda registrou um álbum para o dono do estúdio, sanfoneiro de forró, em troca do tempo de gravação. Embora fossem instrumentais, decidiram abrir o disco com uma faixa cantada para facilitar a entrada no mercado: “Linha do Horizonte”, com letra de Paulo Sérgio Valle e escrita por João Américo Paraná, que virou tema da novela Cuca Legal.
A estratégia funcionou: com essa música, o Azymuth entrou nas rádios comerciais. Ainda assim, no Radar Sonoro, Sarah Quines destaca outra faixa marcante: “Estrada dos Deuses”. Ela comenta que a inovação sonora do trio também se deve ao interesse por instrumentos eletrônicos raros no Brasil na época, como o sintetizador ARP String e o piano Rhodes, movimentos que dialogavam com o que artistas como Herbie Hancock e grupos progressivos como Yes e Emerson, Lake & Palmer faziam no exterior.
Apesar das trilhas em novelas e alguma repercussão no rádio, o disco de estreia não foi um grande sucesso imediato. Alex Malheiros comentou, em entrevista, que muitos não compreenderam o som: alguns chamavam de rock, enquanto o grupo definia como música contemporânea. Ainda assim, o trio excursionou com o álbum por regiões do Sul e do Norte, em um projeto da Funarte. A vontade de tocar no exterior já existia, e a oportunidade veio em 1977, quando o Azymuth foi convidado para o Festival de Jazz de Montreux, na Suíça, tornando-se a primeira banda brasileira a participar do evento. Dali em diante, vieram turnês internacionais e um contrato com o selo norte-americano Milestone Records, que rendeu uma série de discos muito bem recebidos nos Estados Unidos e na Europa.
Nos anos 1990, o Azymuth foi redescoberto por DJs brasileiros e estrangeiros, graças à fusão rítmica que se tornou terreno fértil para remixagens e samples. Com o crescimento do acid jazz, que unia jazz, funk, soul e disco, bandas como Jamiroquai passaram a citar o trio brasileiro como influência. Isso reacendeu o interesse internacional e levou o grupo a assinar com o selo britânico Far Out Recordings.
Bertrami faleceu em 2012 e Mamão em 2023. O único integrante original remanescente é Alex Malheiros, que agora divide o palco com o tecladista Kiko Continentino, conhecido por trabalhos com Milton Nascimento e Djavan, e com o baterista Renato Massa, músico que acompanhou Marcos Valle e Ed Motta. Ambos foram profundamente influenciados pelo som do Azymuth e hoje assumem a missão de manter vivo o legado e expandir a linguagem azymuthiana.
Em 2025, chega o primeiro disco da nova formação: Marca Passo. O álbum é assinado em parceria com o guitarrista e produtor britânico Jean-Paul “Bluey” Maunick, líder do grupo Incognito, que, assim como Jamiroquai, também teve o som moldado pela criatividade do Azymuth. No site da Far Out Recordings, a descrição do disco ressalta que a alquimia de jazz-funk e soul cósmico que marca o “samba” da banda permanece intacta, ao mesmo tempo em que presta homenagem ao legado de Mamão e Bertrami. O repertório inclui a faixa “Samba pro Mamão” e uma nova versão de “Last Summer in Rio”, composição de Bertrami lançada originalmente em Telecommunication (1982).
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