No episódio que marca a estreia da terceira temporada da coluna Radar Sonoro, a jornalista Sarah Quines entra em clima de Oscar e mergulha na trilha sonora de “O Agente Secreto”, indicado a quatro categorias: Filme, Filme Internacional, Ator (Wagner Moura) e Direção de Elenco.
A música não é mero detalhe nem serve apenas como trilha de fundo. Uma prova disso é o pedido do próprio diretor Kleber Mendonça Filho às salas de cinema, na época da estreia do filme: o longa deveria ser exibido em alto e bom som. A trilha já foi lançada até em vinil.
Logo no começo de “O Agente Secreto”, ouvimos o “Samba no Arpège”, de Waldir Calmon, na mesma versão que tocava nas rádios na década de 1970, ajudando a recriar a atmosfera do período.
Além da ótima trilha sonora original, composta pelos irmãos Mateus e Tomaz Alves de Souza para o filme, chamam a atenção as canções que vão de gemas escondidas da música brasileira a hits do pop internacional. A curadoria foi feita pelo próprio Kleber Mendonça, que garimpou LPs em lojas do Recife.
“Durante a filmagem, tem umas músicas que aparecem como ideia porque alguém sugere ou porque uma cena foi de uma maneira que me fez lembrar de uma música. O período da montagem também muito importante para achar a música do filme”, afirmou Kleber Mendonça. “Foi um processo muito longo. Teve uma tarde que eu fui para loja Passa Disco, no Recife, e voltei com quatro discos muito raros. Uma ida num sábado a tarde pruma loja de discos forneceu quatro músicas muito desconhecidas pra mim e que tão no filme”, detalhou o diretor.
Entre as músicas garimpadas pelo diretor, estão “A Briga do Cachorro com A Onça”, da Banda de Pífanos de Caruaru, e “Desabafo”, do conjunto Concerto Viola. Clássicos do cancioneiro popular, como “Eu Não Sou Cachorro Não”, de Waldick Soriano, e “Não Há Mais Tempo”, na voz de Ângela Maria, se somaram à trilha. E sons internacionais também foram incluídos na trilha de “O Agente Secreto”, como canções de Donna Summer e da banda Chicago.
Tem, ainda, dois sons que tocam em “O Agente Secreto” que vêm de um dos discos emblemáticos da psicodelia pernambucana: “Harpa dos Ares” e “Trilha de Sumé”, gravadas no icônico “Paêbirú”, que juntou a viola de Zé Ramalho com o tricórdio de Lula Côrtes, um álbum envolto por uma aura mítica. O disco foi gravado em 1975, na Rozenblit, fábrica e gravadora do Recife, alagada com a enchente do Rio Capibaribe que destruiu cerca de mil cópias desse álbum. Sobraram umas 300 e, em 1976, saiu uma outra versão remasterizada com alguns efeitos a mais num estúdio no Rio de Janeiro. Já contamos a história em detalhes num Radar Sonoro anterior.
Para ouvir a coluna Radar Sonoro, clique no play.