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Viva Maria, 40 anos: a força de uma sobrevivente de um ataque com fogo

Cristina Lopes virou fisioterapeuta para salvar outras mulheres

Viva Maria

No AR em 10/09/2021 - 19:15

"Eu sou uma sobrevivente do crime de gênero. Tive mais de 85% do corpo queimado. Isso jamais teria ocorrido se eu fosse um homem."

A sobrevivente é Cristina Lopes Afonso. Hoje, aos 56 anos de idade, é fisioterapeuta e secretária de Direitos Humanos e Políticas Afirmativas de Goiânia (GO). Em 1986, com 20 anos, foi vítima do ex-marido que, após ameaças, jogou álcool e ateou fogo sobre o seu corpo em Curitiba.

Cristina lembra que procurou fazer o curso de fisioterapia por admirar a atividade profissional que a ajudou a se recuperar da violência e 85% do corpo queimado.

“Quis fazer o curso e me especializar no tratamento de queimados para que eu pudesse ajudar outras pessoas”, recorda.

 

 

Cristina Lopes

Cristina Lopes foi vítima de violência doméstica. Foto: PSDB - Divulgação

 

O agressor, um médico, foi condenado em júri popular. A história de recomeço de Cristina Lopes foi transformar as dores do corpo e dos traumas em outros sentimentos e ações. Nesse caminho, é necessário denunciar, conscientizar e educar. Tem sido aliada na luta de Cristina o programa Viva Maria, da Rádio Nacional. "O programa sempre teve os microfones abertos para eu contar minha história e para buscarmos contar muitas histórias para outras mulheres. Microfones para que nos ajudemos a prevenir sobre violência doméstica", afirma.

Para Cristina Lopes, comunicação é o que leva a sua história para mais pessoas. "Esse é um lugar ainda que tende a defender o homem, o masculino". Os veículos de comunicação são fundamentais para educar sobre isso. "Eu ouvia das pessoas perguntas como: "O que você fez para ele? Você o provocou de alguma forma?" Uma transferência permanente da culpa para a vítima.

Ela defende que é necessário que, além das punições, se procure educar e refletir. "Por isso, eu sou uma filha do programa Viva Maria. Tenho total respeito pela informação e pelo conteúdo que nos faz melhor e leva conhecimento para as pessoas. A mulher precisa se apropriar do seu universo e conhecer-se mais", afirma. Ela argumenta que uma cultura machista é responsável pela violência permanente contra mulheres em todo o Brasil. Uma dessas receitas, na opinião da secretária de Direitos Humanos, é buscar a construção de olhares para as crianças de forma que se desnaturalize os ciclos de violência.

Assista a trecho de entrevista

Conscientização desde cedo

Meninos e meninas que, ao tomarem contato com a violência em casa ou a que chega por outros caminhos, compreendam que não se pode admitir essas situações. Outro público que Cristina Lopes destaca é a necessidade de procurar os homens para que eles entendam que todo tipo de violência contra mães, irmãs, esposas, namoradas, colegas e filhas deve ser marcado como inadmissível. "Não adianta eu olhar só para a mulher. Temos que olhar para as crianças. Elas assistem à violência e devemos explicar que a violência não pode se repetir.

Cristina Lopes recorda que o aperfeiçoamento da legislação é uma conquista de toda a sociedade. A Lei Maria da Penha recebeu o nome de uma mulher que foi alvejada pelo ex-marido.

  "Esse crime que eu vivi me levou para a fisioterapia, já que busquei aceitar essa missão de cuidar de pessoas com queimaduras, além de trabalhar na formação de profissionais para que entendam o que essa dor significa."


Consequências das cobranças

A advogada baiana Vera Araújo, que é ativista da Frente das Mulheres Negras do DF e do Entorno, testemunha que o programa Viva Maria tem responsabilidade direta pela criação de uma delegacia especializada de atendimento à mulher em Brasília. "A criação dessa delegacia passou pelo canal de cobrança que era cumprido pelo Viva Maria. É uma veículo de circulação de debate das nossas necessidades. Foi um instrumental de luta reivindicativa da maior importância." A advogada e pesquisadora entende que o rádio é uma forma de comunicação direta e que tem ajudado a convocar em todo o país pessoas e suas histórias, redes de solidariedade e movimentos, além de pressionar representantes eleitos pela aprovação de leis.

Assista a trecho de entrevista

O programa de rádio, de acordo com a pesquisadora, ajuda a desenvolver uma consciência crítica. "Um fato que fomos percebendo e divulgando com a ajuda do programa é que as mulheres negras recebem menos medidas protetivas por parte do Judiciário. As delegacias também trazem menos recursos no sistema público para proteger mulheres negras. Jamais devemos nos calar."

Por: Luiz Claudio Ferreira, de Brasília (DF)
Edição: Alessandra Esteves

Criado em 14/09/2021 - 08:00

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